O dia em que me dei conta de que a casa estava ficando vazia

O dia em que me dei conta de que a casa estava vazia

 

Eu não abri mão da minha vida.
Nunca deixei de trabalhar, de sonhar, de criar.
Conduzo uma empresa com mais de 30 pessoas, participo de decisões grandes, embarco em projetos ousados, conheço gente incrível, faço viagens que me encantam, e tenho uma rede de apoio que me sustenta e me inspira.
Mas, mesmo com tudo isso, em algum momento, eu me vi sozinha.
Foi um sentimento que chegou de mansinho. No silêncio da manhã, quando percebi que o barulho da casa tinha mudado.
Meu filho mais velho está na faculdade. Ele tem uma vida que pulsa fora daqui. Namora, estuda, em breve começa a trabalhar. O mais novo embarca agora pra um intercâmbio, e vai passar uma temporada fora, estudando. Meu marido está trabalhando em outra cidade, e só conseguimos nos ver aos fins de semana.
De repente, a casa que sempre foi cheia... começou a esvaziar.
E isso dói.
Não porque eu tenha deixado de viver a minha vida, mas porque a dinâmica muda. O ritmo muda. Os cheiros mudam. A rotina muda.
E dentro de mim, algo também começou a mudar.

Eu sempre fui uma mulher ativa. Não sou do tipo que se anulou. Eu criei, construí, batalhei, vivi com intensidade.

Mas o “ninho vazio” não pergunta o seu currículo, nem quantos projetos você tem na gaveta. Ele chega mesmo assim.
Chega quando você senta pra almoçar e ninguém te chama de mãe.
Quando não tem mochila jogada no sofá, barulho de vídeo game, lanche da tarde pra dividir, nem história do colégio pra ouvir.
Chega quando você percebe que está, de novo, em um novo começo.
E não tem manual pra esse recomeço.
Ele pode ser silencioso, dolorido e até confuso. Mas também pode ser libertador.
Eu não tô aqui pra dizer que é fácil, nem pra romantizar esse vazio. Mas sim pra compartilhar, de mulher pra mulher, que ele existe.

E que tá tudo bem sentir.

Tá tudo bem se emocionar no meio do dia, sem motivo aparente.
Tá tudo bem se sentir meio perdida, mesmo com a agenda lotada.
Tá tudo bem olhar pra sua própria história e pensar: “o que vem agora?”

A verdade é que, mesmo tendo construído uma vida inteira, eu percebi que ainda tenho muito por viver.
E isso é bonito também.

Porque mostra que a gente nunca está pronta de verdade.
Que somos feitas de ciclos.

E se hoje a casa parece um pouco mais vazia, talvez seja porque chegou a hora de eu me escutar mais.
De preencher esse novo espaço com uma nova versão de mim mesma.
Uma versão que ainda sonha, ainda sente medo, ainda se emociona — mas que também segue.
Com mais calma, mais presença, mais coragem.
Porque o vazio não precisa ser um fim. Ele pode ser a pausa antes de um novo começo.

 

Com carinho,
Marluce.

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